O reflexo



Enquanto me olhava no espelho, percebi a maquiagem borrada. Joguei um pouco de água no rosto, e me deixei molhar. A água estava fria, como meu coração. O borrão ficava mais evidente, conforme espalhava a água, parecia que não limpava nunca. Mas depois de umas boas lavadas, fui ficando de cara limpa. Tirava toda aquela maquiagem que disfarçava meus títulos. Todo enfeite que encobria a dor que estava sentindo. A maquiagem fazia do meu olhar melhor, mas minha visão estava flagelada, fora de foco.
De repente as lágrimas se misturavam com as gotas de água, e já não sabia separar. A alegria pelas escolhas próprias e bem feitas, a tristeza por me sentir sozinha.
Faltou-me o sorriso firme e forte de quem sempre significou algo pra mim. Ficou a lacuna do apoio que nunca tive.
Acontece que a indiferença e o desprezo são as piores retribuições. Não desejo isso a ninguém.
Nunca um aconchego e um abraço me fizeram tanta falta. Nunca ficou tão claro pra mim o valor que eles têm.
A vontade de fazer malas, angústia besta adolescente, ainda persegue a minha vida de agora. E isso é muito grande.
Só que a essência de quem eu sou, e do que sempre acreditei ser capaz de fazer, sobressai meus desejos fúteis e rebeldes, sempre me ajudando a preservar o que é de mais importância.
Meu coração ainda continua gelado, e isso é resultado de icebegers que lhe foram ofertados. Dias dificeis e turbulentos, tempestades fortes, atitudes impensadas.
Entendo hoje que icebegers podem gerar marcas, destruir expectativas, nos colocar em estado de inércia.
Tantas coisas fazem sentido pra mim agora. Mas nada tem sido suficientemente capaz de aquecer meu coração.