Sobre cartilhas e significados

Ainda sustento muitas opiniões de séculos atrás, basta observar minha infância. Era a garota da jardineira cor de pele, com um tenis vermelho, que combinava com a camisa polo que deixava por baixo. Amarrava o cabelo de forma fixa e comportada. Sempre estava no horário certo, com as lições em dia: o orgulho dos professores.
Tinha vezes que por causa da chuva, a ameaça de não conseguir ir pra escola chegava bem perto, e eu me colocava a chorar. Nas férias eu logo tratava de arrumar uns desenhos pra pintar, algumas palavras cruzadas pra fazer. Apontava os lápis com cuidado e coloria a folha toda com prazer.
Sentava na frente, e fazia minha postura de aluna boa e inteligente, era inocente de muitas descobertas que já estavam se iniciando.
Tirava 10 em tudo, que as vezes até enjoava. Tinha poucas preocupações e nunca fiquei de recuperação.
O sinal batia e ia pra casa assistir desenho, as vezes um filme bem legal, outras vezes, um VHS alugado.
Já tinha 10, mas era criança e ingênua como quem completava 6. Pouco sabia sobre os namoricos, os palavrões e as brigas que rondavam os quarteirões.
Era estranho ser da 4a serie! Parecia algo tão adulto pra mim. Adultos são importantes. Gente da 4a serie é quase como eles.
Que frio vinha na minha barriga quando nos preparavamos pras excursoes. Pegar o onibus, preparar o lanche no dia anterior com a mamae, aah, o papel aluminio!
Levar duas notas de cinco e achar um dinheirão. Tirar fotos com filme de 24 poses: uau, quanta foto!
A parte ruim era ter que fazer redação sobre o passeio, sobre as férias, desenho sobre o natal, cartao do dia dos pais, orelhas de coelhinho. Sempre o glitter melava tudo! A régua nao impedia que as coisas ficassem tortas. A cola colava tudo, menos o meu papel. Pedia pra professora pra ir pro banheiro e desgrudava a meleca das mãos. Olhava no espelho e não tinha vaidade nenhuma. Sem preoupaçoes com a sombrancelha, os cabelos cacheados ou as remelas nos olhos. As pernas sempre cinzentas.
Pouco importava se a minha mochila rosa era de algum personagem da tv, e talvez não combinasse muito com a minha roupa. O legal era o cheirinho de material novo!
Ah, como eu gostava de receber listas de materiais:
-stencil
-cartolina
-folha de ditado
-tesoura sem ponta
E, claro, um tecido pra colocar em cima da carteira: não queremos sujar os materiais.
Meu sonho maior sempre foi as mochilas de rodinhas. Parecia coisa incrível ter uma! Mas as coisas custavam caro, e eu morava pertinho da escola, nao precisava de algo assim - justificava minha mãe.
Pra mim as descobertas estavam em ir em salas que nunca estive, saber o nome da inspetora, comprar um doce novo na cantina.
As tristezas tinham a ver com a barbie nova que não podia comprar, mas que aparecia toda hora na televisão, bem como, ser chamada de apelidos na hora do recreio.
As vezes desejava ter outro nariz, morar numa casa com piscina e ter um boneco pra casar com minha barbie (pra este ultimo deposito ainda mais atenção, nunca levaram a sério a importância de uma boneca ter um parceiro).
Não tinha muitas ideias dos problemas do mundo, só prestava mais atenção nisso quando a professora nos fazia ouvir "Asa Branca", e eu tinha pena da Rosinha, toda vez.
Pode ser que até interpretasse bem as questões sobre textos que a gente lia, mas não fazia ideia de quanto as coisas duras e ruins eram reais.
Uma coisa ou outra ficava mais clara pra mim quando ouvia meu pai falar sobre "aviso prévio" e minha mãe sobre as contas do mês. Acho que foi aí que entendi o significado de atraso.
Contas em atraso, presentes em atraso, pessoas atrasadas, abraços atrasados.
Uma vez, na 2a serie, ganhei um livro ilustrado. E este eu tenho até hoje. Foi entregue por minha professora, que alias, tinha o mesmo nome que o meu. O meu pai dizia que éramos charás! Eu não sabia muito o que aquilo queria dizer. No 1o dia de aula, ela pegou uma cartolina e um canetão e escreveu seu nome, lembro de ler e ficar confusa: por que o nome dela era escrito sem acento? Pra mim dúvidas inconcebíveis eram como essa.
Eu tinha um grande respeito por professoras! Lembro da Cida Leite, professora loirinha e alegre que me ensinou a soletrar. Depois, a minha chará, que nunca me explicou o porquê dos acentos. Depois veio uma professora bem velhinha e de bengala, chamada Mauraci, ela tinha verruga e parecia ser uma professora má. Mas no fundo a gente sabia que não era! Depois dela veio a professora Roseli, que era mãe de um menino da nossa sala. A gente achava isso meio estranho, mas era legal!
Eu achava que as professoras eram pessoas pacientes, boazinhas e dispostas a nos ajudar, era por isso que ajudava elas também. Não fazia bagunça, terminava toda a lição e ficava de vigia na sala anotando os nomes! Essa parte não era muito empolgante, porque me fazia mal com meus amigos, que me achavam a maior puxa saco. Acho que foi aí que entendi o significado da verdade, que as vezes é tida como bajulaçao (palavra esta que fui conhecer muito tempo depois).
E por falar em palavras, eu sempre gostei delas! Não sei quando a gente começou a amizade, mas sei que logo eu tinha a carteirinha da biblioteca e lia muitos livros. Achava mais legais aqueles que vinham com figuras, pra mim os cheios de letras em todas as páginas era coisa de gente grande. E eu era pequena, tanto no tamanho, quanto na maturidade. Gostava de cantigas de roda e sandálias que ficavam ilustradas nas propagandas de gibis, enquanto algumas amigas já queriam usar maquiagem. Demorei um pouco pra perceber, e quando me dei conta, já era gente grande. Mas isso não me dava medo, pelo menos por enquanto. Os medos estavam em perder a lapiseira ou o apontador e a angústia em ter que encontrá-los pra poder ir embora pra casa.
Muito do que eu definia como prazer, sonho, tristeza ou medo mudou. Tudo que eu queria era mais simples. Parece-me ter entrado no universo complexo dos adultos. Aonde não dá pra se definir em uma palavra a razão da tristeza, e nem resolver com um abraço a culpa. Muitas vezes para os adultos é dificil até mesmo definir o que se está sentindo, parece ser tudo meio que misturado.
Mas pra uma criança essas coisas não existem. E muitas delas se resolvem com um pirulito ou um ingresso pra roda gigante.
Sempre achei os adultos pessoas sérias e ocupadas demais. Demasiadamente importantes. "Não tenho tempo pra essas coisas" "Coisa de criança".
Eu sabia que um dia ia crescer também, mas não pensava muito nisso. Fui crescendo por fora, e deixando muitas coisas aqui por dentro.
Ainda sustento a minha opinião sobre esse universo complexo de quem já deixou a escola. Mas agora, é diferente, sou responsável pelo desfecho que essa história toda pode ter.
Novas definições de palavras e sensações estão surgindo. Novas e boas oportunidades pra eu preservar em mim o que sempre quis ser.