Sobre cerimônias

Andei ouvindo coisas demais nos últimos dias. Desabafos de quem passou por algumas doses de frustação. Ouvi dizer sobre a mudança que ocorre quando nos casamos, o déficit do dia a dia, o papel da mulher. Quanto egoísmo!! Ou talvez os meus pensamentos sejam. Percebo que sei muito pouco sobre qualquer tema familiar, me falta bastante referência sobre o assunto, mas desejo aprofundar-me nele.
Compreender as questões do cotidiano, os comportamentos, as falhas e os momentos difíceis. Tanta coisa muda até chegarmos neste outro estágio, a beleza, a individualidade já não são tão coerentes. Precisa-se de negação, de uma cumplicidade maior, e uma maturidade mais silenciosa.
Acontece que toda essa onda de papéis assusta um pouco. Essa chuva de títulos e obrigações. Não justifico isso com um ponto de vista preguiçoso, nem me julgo em caráter irresponsável. Só que dá medo, tem horas. Medo de que esse caminhão de quesitos, de cargos e novos comportamentos assumam nossas importâncias. E daí, pesando o que é importante, sobra pouco tempo pra sermos nós dois. Para que eu seja a garota que lhe roubou a atenção, para que continuemos a rir um da cara do outro. De repente, isso pode nos comprometer a ânsia de estar junto, a alegria saltitante e as peripécias de um dia qualquer.
A vida adulta me parece assustadora, isso se dá pelo que já observei dela. As conversas intimistas e os palavreados reclamões, o cálculo do fim do mês, o dinheiro que não sobrou, a cobrança pelo que não se fez, a noite mal dormida. A relação começa a desenvolver-se em cima do arroz sem sal feito pro almoço, as compras que esqueceu de fazer, os remédios que se deve comprar, o filme na televisão.
Parece meio inútil isso pra mim. Parece um pouco controvérsia, pouco fermento ao que se fez unir. Pouco significado do que se fez estar junto.
Não quero acordar e esquecer que sou sua menina. Não quero vestir-me com uma túnica de responsabilidades e sobrecarga. Quero continuar com o mesmo tom de batom, forte como outrora, embelezando-me pra você.
Quero que deixe o capuz do seu blusão meio bagunçado, pra que eu lembre que sempre fui a que mais se importou em arrumá-lo. Quero que faça cafuné na minha cabeça, enquanto eu tento diminuir o volume do carro.
Quero que tolere minha implicância idiota e me leve pra dançar, mesmo daqui 2 dias, ou depois de longos anos, mesmo que você pise no meu pé.
Quero trocar e-mails, cartinhas e mensagens de texto. Tirar fotos nos espelhos que vemos na rua e andar a toa pela cidade. Entrar em restaurantes que nunca estive, provar novos sabores juntos. Conhecer o mundo e deixar-se molhar, pisar na poça d'água e rir sem ter mais descanso, cantando a primeira música que vier na cabeça.
A maioria dos adultos não liga para esse tipo de coisa. Mas tenho certeza de que não somos como eles.