Os dias chuvosos e enigmáticos sempre se tornam cenário para minhas palavras. Gosto de organizá-las em tempos assim. A chuva deixou meus pés molhados e as gotinhas ainda estão na mochila. O dia está chegando ao fim, mas ainda está úmido, tal como a notoriedade dele em mim.
Deveríamos ter tempo de sobra pra poder analisar cada fato da vida, cada chuvisco que enxarcou nosso moletom velho e sujo.
A pressa em abrir o guarda chuva e chegar em casa às vezes consome a vontade de compreender a fórmula da chuva. Mas continua a relampejar lá fora, quer nos importemos ou não.
Coloco os pijamas, apronto minha cama e quero logo dormir. O dia correu depressa, vimos tantas pessoas, percebemos poucas coisas. Mas cumprimos nosso papel.
Acontece que tem horas que essa história toda cansa e queremos só ser alguém ocupado em dormir. Um sonolento. Parece bom adjetivo ao meu ver.
Os pinguinhos vão soando forte sobre o telhado, os respingos, tem horas que vem na gente. Não dá pra dormir.
Vira-se pro lado, vira-se pro outro.
A sonoridade da tempestade não ambienta o nosso repouso.
Custa-nos um pouco pra entender, e por consequência, render-se.
Passado horas de teimosia, pego meu caderno pautado, uma caneta azul, começo a imaginar.
Não vou ignorar o barulho que me incomoda agora. Vou transformá-lo em palavras.
Uma escritora com insônia. Parece um bom papel, ao meu ver.



