No silêncio de mim





O silêncio é exatamente tudo o que se precisa quando existe uma multidão de pensamentos gritando dentro de você.
Me ajude a encontrar o silêncio agora.
Andei sem pressa pela rua, procurando um lugar em que pudesse descansar. Um canto em que se cessassem todas as mentiras do mundo.
Estão me ensinando que existe uma lição em todas as coisas. Mas não há fôlego pra pensar nisso agora. 
Minha reflexão foi substituída pela reação.
Súbita e imediata. Quase um extinto.
Gostaria muito de pegar tudo que já escrevi e dizer agora pra mim mesmo. Toda a moral que já aprendi. Tudo que já repassei a outros.
Existe uma lacuna nesse espaço de tempo, e eu não consigo perceber o futuro urgindo. 
As sensações de um passado em que eu não estive são perturbadoras. 
Agora, constroem o futuro que certamente não será compartilhado.
Existe uma imagem em looping na minha cabeça e é exatamente ela que não me permite falar.
Meus pensamentos não são capazes de chegar na minha boca e me permitir dizer, com êxito, o que está me consumindo agora.
Uma fila de monstros se amontoam em mim. 
Estou dando espaços a eles.
Não por ser fraca e covarde. Mas exatamente porque eu preciso sentir o que estou sentindo.
Minha expectativa de achar um lugar tranquilo enquanto caminhava foi frustada. Cá estou eu num trem barulhento outra vez. Meio a tanta gente. Gente que eu nunca vi.
Nenhuma delas podem fazer ideia do que está se passando comigo nesse instante.
E por mais que esse não seja o lugar mais silencioso do mundo, escolhi ficar aqui.
Uma lágrima ou outra pode vir sobre mim, e não terá problema nenhum. Ninguém vai se importar.
Hora ou outra fecho os olhos na esperança de enxergar tudo na normalidade que lhe pertencia. 
Mas eu já sei que as coisas não são tão mágicas como na minha cabeça, e na pratica são tão bagunçadas. Nem um pouco parecidas com as que estão no papel.
Por que então nos dão receitas para tudo? Todos sabemos que não será seguido dessa forma. Não somos tão leais assim.
Nós não fomos.
Meu trajeto mudou muito ao longo do tempo. Eu não desço mais nas mesmas estações. A viagem hora se encurta, hora fica mais longa. Mas o maior esforço da minha vida, o maior de todos, era permanecer no mesmo lugar. Sempre tentando ser eu mesmo, mas numa versão melhorada de mim.
O que eu não entendi é o por quê dos aprendizados que a vida proporcionou pra mim tinham de ser cruéis assim. Por que eles sempre viriam vestidos de todas as expectativas que já penetrou no coração de alguém e sairiam pedindo desculpas. Por que eles se apresentariam tão bem e se revelariam tão contraditórios?
A vida deveria ter dosado os excessos comigo.
E eu deveria ser mais comum.
Ser aquele tipo de pessoa que não aposta em coisa alguma e desacredita de todos os votos. Poderia ser cética e racional. Menos flexível, mais ponderada. 
Não deveria falar tanto o que sinto. Não deveria amar tanto qualquer coisa que eu faço.
Deveria levar a vida mais a sério. E fazer apenas o que tem que ser feito. Sem muitos enfeites. Sem muitos sonhos.
Por que eu tenho que colocar sonhos em tudo?
Que mania é essa de borboletas no estômago? 
Foi sempre esse meu modo que me desapontou.
O trem está completando seu percurso, e eu fico aqui, chateada comigo mesmo, com minha forma.

Já resolvi.
Vou ficar no silêncio de mim.