Resenha - As Aventuras de Pi
Que aventura esperar de uma história que se passa quase que exclusivamente no meio do oceano com um menino e com um tigre? Esse é o xis da questão.
Yann Martel trouxe ao longo das quase 400 páginas do livro informações detalhadas ao ponto de você se ver no local descrito. Detalhes, parênteses, aulas de biologia, zootecnia e religião. E, por falar em religião, foi disso que mais tratou a história de PI: da descoberta do espiritual, das experiências profundas e transcendentes. Questões como a categorização da fé também são mencionadas, além de nos fazer refletir acerca do evangelho da vida cristã.
"Esse Filho é um deus que morreu em três horas, gemendo, arfando, se lamentando. Que tipo de deus é esse?" (...) "Quando mais Ele me irritava, menos eu conseguia esquecê-lo. E quanto mais eu aprendia a Seu respeito, menos queria deixá-lo" - impressionava-se PI, ao ouvir falar sobre Jesus, o Cristo.
Ao longo da leitura marquei com canetas coloridas muitas citações que expressavam uma profundidade capaz de desembocar outras histórias. Yann Martel é filósofo, pra ele isso é natural. A riqueza de questões que discutem a vida e o comportamento dos seres humanos é o ponto chave da obra. O livro trata da questão da sobrevivência, da relação do homem com o grupo e o quanto sua individualidade (involuntária) grita mais alta.
O tempo todo o autor simula os animais em metáfora. Eles nada mais são do que os próprios personagens que estavam a bordo do bote. Mas estes seres humanos, devido às condições em que se encontravam acabam revelando o animal descontrolado e faminto que existia dentro deles. Só precisava se manifestar, já estava ali.
Essas comparações me lembram um pouco a leitura de "O ensaio sobre a cegueira", que discute as relações humanas em contextos desprezíveis, em questões em que o "estar vivo" bate mais forte. A diferença é que "O ensaio sobre a cegueira" declarou-se imundo e animal desde o início, sem metáforas. As aventuras de Pi parece nos contar uma história fantástica e além do que é real, quando, na verdade, nos engana com a realidade bruta e cruel sobre nossos instintos.
Trata-se de um jogo literal e ritmado que beira filmes de imaginação, quando, de repente, essa fantasia toda é obra maquiada para disfarçar a verdadeira história sobre nós.
Pi, aqui se vê como vítima e criou um outro dele (em versão de tigre), na expectativa de amenizar sua dor pelo o que ele tinha sido capaz de fazer. Conseguiu se ver do lado de fora e extrair suas situações próprias como sendo de outro. Criou uma outra narrativa para a visão que seus olhos contemplaram, para não sentir-se tão infeliz pelo enredo de sua trajetória.
Essa genialidade toda de Yann Martel nos propõe uma reflexão sobre nossas vidas e nossos traumas. De que forma enxergamos a nós mesmos e nosso contexto quando uma grande tempestade destrói tudo ao redor? Que realidade criamos para disfarçar o nosso remorso pelos erros que nós cometemos?
Em uma grande aula de filosofia, Yann Martel mostra que, podemos ser surpreendidos com as feras que carregamos dentro de nós. E, no fundo, não estamos "anestesiados" ou "fora de si" como dizem as justificativas pelo mundo... Nós observamos tudo, inclusive nossas atitudes, podemos ate desprezá-las, mas usamos do artifício de mover nosso ponto de vista para não nos vermos naquela mesma história, ou como no caso de Pi, não nos vermos naquele mesmo personagem.




