Paradigmas

Eu queria escrever um texto novo, exatamente porque o mundo está enfadado de coisas velhas. As desculpas continuam a ser as mesmas de sempre. Os programas. A música. Mas o texto, não sei porquê, ele meio que consegue adaptar-se à outras posições. Falava com um amigo, que é a arte mais acessível essa tal da escrita. Preciso de caneta e papel apenas, mas neste momento exato, se faz suficiente um computador.
Sempre fui daquelas mais antigas, acho que sempre escrevi em papéis - de várias cores, de várias gramaturas - nos apropriados, nos improváveis. Já escrevi nas paredes do meu quarto, na capa do caderno, no saco de pão. Mas agora estou colocando tudo frente à uma tela. Não repassando, mas realizando o ofício aqui, e esta é a primeira vez. O estranho é que a sensação é de como estar escrevendo um email, mas até pra esses eu utilizo um rascunho em papel, confesso. Podem julgar-me, é que as vezes não dá pra entender nossos costumes, nossa metodologia. De uma forma ou de outra, como escreveria um texto novo sob um suporte "velho"? Hoje estou ousando, indo contra o meu costume e o processo que inventei.
Tem horas que encontrar processos novos pode ser uma tarefa meio desconcertante, porque já sabemos como se faz para dar certo, como se faz para sentir, para colocar ideias no lugar... Mas uma hora é preciso (e inteligente) tomarmos novos métodos pra que uma coisa que tem surtido o mesmo efeito sempre, possa finalmente nos surpreender. Tudo isso depende de certa abertura de nossa parte e do quanto estamos realmente dispostos a sair do "estável", do "velho", do comum. Na verdade isso tudo é o nome que se dá a coisa que você tem controle, a coisa que você já sabe o que acontece no final. Os paradigmas vêm da ideia de algo extremamente absoluto, aprovado e modelo ideal. Podemos chamá-lo de "receita de bolo",. de "tutorial", de "10 passos pra isso ou pra aquilo" ... Essas coisas todas já são velhas e se dão certo ou não, não são próprias, não causam aquela sensação de inédito que o mundo está em angústia pra apreciar.
O que resta em virtude de tudo isso são algumas cópias. Cópias não apenas de soluções, de ideias, de textos ... Mas cópias de pessoas, de atitudes. Cópias essas que geram a perda da genialidade do ser humano que existe em nós, que nasceu autêntico, mas continuou a fazer - a vida inteirinha - o que todos já haviam feito ou planejado (por ele).
Todos esses rodeios, dizia eu, pra justificar essa minha conquista de estar escrevendo no computador. Mas vamos lá, isso já é uma mundança! Afinal, o mundo é feito de pequenos detalhes que transformam uma coisa estritamente pavorosa: a rotina.