O natal aqui não existiu e, isto, num sentido puramente emocional da palavra. Eu, na verdade, sempre gostei do natal. E, por mais que saiba de seus sentidos perdidos nesta era consumista e avarenta, gosto da oportunidade família que ele oferece. As tradições das comidas, dos presentes e do sentar à mesa: isto pinta um quadro muito bonito.
Na minha concepção, os natais poderiam ser evidentes durante todo um ano, não se restringir apenas à uma data.
Seus sentimentos singelos e cores poderiam enfeitar a nossa vida o ano todo. A reflexão que ele proporciona, os sonhos livres e os sorrisos amorosos: tudo em nós, pra sempre!
Mas voltando no que explicava, o natal este ano foi vazio, não somente o ano todo, como também na data que era para ele ser e existir.
Existem acontecimentos que deveriam ser explicados e, quando passassem não deixar em nós lembranças sequer, mas na vida real isto acontece nunca. As vezes, da impressão que as coisas ruins são as mais intensas em memória e perpetuação, seja em nossos pensamentos e também na alma. E esta, sem dúvida, é uma consequência muito ruim da vida.
Os natais lá em casa sempre foram simplórios. Nunca foram parecidos com aqueles comerciais de coca-cola. Mas sempre o foram, de uma forma ou de outra. Todos estavam reunidos, uns organizando pratos, outros a iluminação, havia os que fotografavam. Buscávamos uma reunião atrativa, boas conversas e abraços fortes. Não dá para adivinhar o quê o coração de cada um intencionava, mas prefiro pensar assim...
A música que enchia o ambiente era instrumental, destas que gente tola acha intediante, mas para mim era a melodia que se encaixava perfeitamente com o momento e seus propósitos.
De repente, como um nada, simplesmente de repente, das conversas meigas fez-se as ofensas, do clima celestial, fez-se tensão, dos olhos que transpareciam a alma, fez-se lágrimas.
As luizinhas se apagaram. Os presentes no canto se misturaram à poeira. Os abraços deram lugar à ira, os desejos de natal às palavras que corroíam feito câncer. Os convites perderam espaço para um desiquilíbrio mal intencionado, para os discursos impensados, para a agressividade de um coração vazio.
Da reunião fez-se a discórdia, da maquiagem, as cicatrizes da alma. Toda a imagem de natal, consagra-se apenas à fotografias com cores intensas, uma mesa farta e presentes sobre a árvore enfeitada, descrevendo uma noite feliz.
Mas tudo aconteceu de repente, como um nada, simplesmente de repente.



