- fora das flores, perto do frio.


Para todas as pessoas existe uma noite de inverno, aquela que toma teu coração bem forte, ao ponto de fazê-lo congelar. São horas em que não sobra espaço para pensar em poesia. Olhamos para os lados: existe barulho, existem pessoas. Mas ao mesmo tempo não há ninguém. Seus pensamentos se perdem em meio à rotina e ao acúmulo de coisas deixadas guardadas na gaveta. Existem palavras colocadas ao vento, cabelos mal penteados, traços mal desenhados. A música nunca se encontrou.

Faz-se o momento para deixar-te levar, para lembrar-se do tempo, das coisas tolas e dos sonhos bobos: da noite de inverno. O céu vai tecendo uma atmosfera reflexiva e os direcionamentos certeiros se perdem junto à imaginação. É como se toda a vida pudesse parar e esperar a sua decisão, o seu entendimento. Os devaneios e as tolices não podem ser compartilhados por ninguém. A realidade é somente tua. O medo se apresentou somente a você.
Os sons estão cada vez mais agudos e as cores mais pastéis. O diálogo previsível, o amanhecer despercebido. Tudo tão simples, tão cálido, tão igual. Ainda que brote no seu interior a percepção da rotina, uma dessas que seja relativamente válida, vista sob novo ângulo, vista sob novo olhar; ainda assim: a noite se faz fria. O frio consome a alegria de quem se faz feliz, o ritmo de quem gosta de dançar, congela o corpo e os movimentos, a alma e a doçura acabam por dizer adeus.
É certo de nós darmos ao mundo à culpa? Ou aos que nos conhecem todo o alicerce de acusação? O que nos sustenta em meio a esse caos, formado pela fúria e fantasmas que vagam em nós mesmos? O que nos socorrerá?
Há um frio imenso lá fora, embora o dia tenha amanhecido lindo. Existem histórias e experiências a serem provadas e vividas. Existe um cotidiano além do agora. Mas as emoções congelaram, ainda que, por magia, constitui-se a primavera.